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A flechada metafísica

Enquanto houver bambu, lá vai flecha.

Esta frase lapidar foi dita em circunstâncias épicas, mas há controvérsia sobre seu verdadeiro autor. Há quem diga que foi proferida por um índio Pataxó ao avistar a esquadra de Cabral. Outros asseveram que foi o brado de um garoto mimado brincando de forte apache no playground. Uma terceira hipótese dá conta de que teria sido a declaração de um procurador da República – mas nesta ninguém acredita, por sua inverossimilhança. O fato é que, pelo sucesso de público e crítica, o arco e flecha virou emblema da moral tarja preta no Brasil.

Quando o companheiro Aloizio Mercadante, ministro da Educação de Dilma Rousseff (lembram-se dela?), foi gravado tentando silenciar o senador preso Delcídio do Amaral não houve flecha. O bambu devia estar em falta. Aliás, esteve em falta por mais de dois anos – pelo menos para flechar Dilma. Foi quando a floresta de escândalos revelados pela operação Lava Jato expôs a presidente da República no centro da maior quadrilha política da história ocidental. Detalhe: ela foi reeleita no meio da lama, sem flecha.

Deu para entender como a crise do bambu pode ferrar um país? Pois bem: foi só a líder máxima do partido que depenou o Brasil ser apeada do poder, e o bambuzal voltou a vicejar na pátria amada. A flechada mais venenosa foi reservada ao sucessor de Dilma – e o veneno era letal: o presidente da República teria regido a compra do silêncio do deputado preso Eduardo Cunha. “Bomba atômica!” – anunciaram os porta-vozes do flechador. Mas, superada a crise do bambu, ninguém contava com a crise do veneno.

A flechada letal não matou, ou seja, tratava-se de uma letalidade tabajara (o Casseta & Planeta já emitiu nota oficial repudiando qualquer envolvimento das suas organizações orgulhosamente vagabundas com os fatos recentes de Brasília). O jeito foi partir para periciar a flecha. E o resultado chocou a todos: a compra do silêncio do deputado não estava lá. Pelo menos, não era visível a lho nu, como a do companheiro Mercadante. Como se vê, há silêncios mais silenciosos que outros. Mesmo assim, boa parte da tribo optou por continuar acreditando no que disseram a ela – inaugurando assim a modalidade da flechada metafísica.

Tinha um negócio também de uma mala de dinheiro do caubói biônico do PT que iria para o presidente da República. Mais uma revelação impressionante, certamente a primeira vez na história do crime que alguém pagou um suborno mais alto do que a vantagem que teria com ele (o primeiro suborno deficitário da história). Mas o atirador de elite das investigações tabajara disse que foi assim, então foi. A verdade emana do bambu. Só não deu para entender por que a arapuca tão bem montadinha pelo flecheiro não seguiu o dinheiro até o bolso do presidente. É o tipo de pergunta que não se faz no bambuzal.

O bom é que a plateia desse tipo de espetáculo não está nem aí para detalhes de produção. O negócio é vibrar com os efeitos especiais. E foi assim que o Brasil teve seu primeiro presidente denunciado por corrupção – coincidentemente o mesmo que saneou a Petrobras, tirando-a das mãos dos meliantes associados à sua antecessora, que por sua vez jamais mereceu uma flechada bonita como essa. Só pode ser discriminação contra a mulher.

Aí prenderam Geddel. “Amigo do mordomo!”, gritaram os caçadores. Eles não erram uma. É bem verdade que o cidadão foi preso por delitos cometidos como ministro do governo petista (e no governo do mordomo ele foi demitido). Mas isso não tem a menor importância. A plateia não está nem aí para distinguir os que lesaram o estado brasileiro – como está patente no caso Petrobras e na recuperação dos principais indicadores econômicos do país. Zé Dirceu está na rua, Lula está em campanha e o crime compensou. Aliás, o flecheiro nem mandou o caubói gravar Mantega e Lula, os maestros da derrocada. Mistérios do bambuzal.

A notícia boa é que o braço direito do flecheiro – aquele que fez o sacrifício de largar a Procuradoria para montar a alforria do caubói e ficar milionário – já não está mais no escritório da leniência. Flecha é assim mesmo, passa zunindo. O show tem que continuar – enquanto houver bambu no picadeiro e palhaços na plateia.

Guilherme Fiuza é jornalista (Crédito: Revista Época)

2 respostas para “A flechada metafísica”

  1. Fiuza, parabéns pelo texto. Me fez lembrar aquela piada, na forma de pergunta, que há tempos uma menina da platéia fez ao Silvio Santos: “Qual a diferença do poste, da mulher e do bambu. O poste dá luz em cima, a mulher dá à luz em baixo, e o bambu?. O bambu, o povo Brasileiro está levando no……..”.

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